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Aula de piano

Todos os pianos são banguelas e, no dente que falta, insistem na pausa que fala. Espero a aula começar, meu pai no saguão, lendo o jornal. Levanto a tampa do piano e o piano sorri, sabendo de todos os meus pecados. Seu imenso sorriso, branco e vago, implorando algum som. Mas eu não sei te tocar, disseram meus dedos. E o piano odiou, deixando a pesada tampa cair. O piano estrondo, rancoroso da última vez em que o professor me puxou para junto da partitura enquanto eu me sentava sobre as três oitavas. O piano rancoroso da última vez em que ele deixou de tocá-lo para me. Não a tampa, mas o meu longo vestido. Não as teclas, mas o anteparo de minhas coxas, que não se queriam parar. Meus dedos trêmulos tentando fá alcançar, enquanto o professor tentando lá. Sustenido, fez quase sol e as partituras dizendo-lhe pausa de oito tempos! Pausa de oito tempos! Deixa-me respirar! Mas o professor ao piano, desamarrando as cinco linhas do pentagrama e as amarrando em minhas mãos. Como é possível: meu próprio corpo a benzer o que minha cabeça entende por pecado? E quando eu não pude mais, os seus lábios toquei, sobre as oitavas eu. Já reparou como o orgasmo é, silenciosamente, agudo? Implodi. Suaves estilhaços. Cuidado, as colcheias têm pontas. Há música dentro de mim fá sol. Meus dedos agarrando-se às teclas do piano. Os seus dedos agarrados aos meus. Sim, meu pai, hoje tocamos a quatro mãos.


Escrito por Silas Corrêa Leite às 10:26
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Escrito por Silas Corrêa Leite às 10:23
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Bucólica

.
Café coado na hora:
.
Cheiro que não escapa
.
De outros cheiros da terra.
.
.
Érica Antunes


Escrito por Silas Corrêa Leite às 11:42
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Noite de Mim

 

“Quem sabe se o mundo não

pode acabar esta noite?... ”

 

Robert Browning

 

 

Para Maira Ferreira

 

Depois das tantas horas da Noite

A Noite é epidermicamente minha

Antes, ela é de boêmios e amantes

Depois, é minha escuridão sozinha

 

Depois da meia-noite a carruagem

Vai-se longe, e a triste dor advinha

Assumo a Noite como um perfume

Em lágrima secreta, alma daninha

 

Antes, a Noite é totalmente tua

O luar, o betume, toda a vinha

Depois que ela é desnatureza

E Noite como uma criancinha...

 

Então, tomo a Noite no colo

E choro-a, numa poesiazinha...

 

Porque a solidão é meu solo

Sou Noite a existência inteirinha!

-0-

Silas Correa Leite, Cidade Poema de Itararé-SP

E-mail: poesilas@terra.com.br

Blogues: www.portas-lapsos.zip.net

OU: www.campodetrigocomcorvos.zip.net

Poma da Série “Lágrimas Secretas”

 



Escrito por Silas Corrêa Leite às 11:04
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Escrito por Silas Corrêa Leite às 11:02
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reflexão



Quem olha para fora, sonha;
quem olha para dentro, acorda.
(autor desconhecido)
Tela: "Melancolia" de Albercht Durer


Escrito por Silas Corrêa Leite às 10:56
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NA CONCHA DE UMA PÉTALA VERMELHA



Na concha de uma pétala vermelha

de uma rosa que o sol abandonara,

eu vi agonizar uma áurea abelha,

por uma tarde castamente clara.

 

O sol deu-lhe a penúltima centelha...

E ela só morre ao luar que a noite aclara.

Outra abelha, que à morta se assemelha,

vem: vai-se, como a outra se finara.


Essas abelhas são as nossas almas,

que viveram em derredor das palmas

das ilusões que vês e que ainda vejo

 

Hoje os raios do sol não a socorrem...

mas veio o luar, que é a benção dos que morrem,

para ungi-las no derradeiro beijo.


Alphonsus de Guimaraens


Escrito por Silas Corrêa Leite às 10:51
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Microconto:

 

 

Geografia e História

 

 

 

A mulher chegou bêbada de novo, da pescaria. Altas horas da madrugada. O Júnior falou Pai, largue a sem-vergonha da mãe aí na calçada mesmo, quem sabe se ela aprende alguma coisa; os cães de rua vão defecar nela. Respondi Filho, eu era apaixonado por sua mãe desde quando ela tinha quinze primaveras. Era a jóia mais preciosa de Itararé todinha. Quem come o filé lambe o osso, filosofei. Amparei Efigênia e levei-a a até a banheira de nossa suíte. Dei-lhe um demorado banho com sais aromáticos. Depois vesti o baby-dool laranja que ela tanto adora.  Dei-lhe uma aspirina e a coloquei na cama. Ele desmaiou de sono, empacotou de vez. Acordei com as galinhas. Efigênia já tinha se levantado. Teria aulas aquela manhã. Fiquei vadiando pela casa até uma da tarde. Eu estava desempregado fazia uns sete anos, e ela vinha segurando as pontas. Quando ela retornou linda e esbelta como sempre, trazia jornal, pão e leite. Depois de me bondiar com um beijo estrelado, perguntou sem mais delongas “O que foi, querido, que aconteceu ontem a noite em nosso ninho de amor?”  Não respondi nada. Mostrei o prato cheio de bagres fritos entre limões-rosa. E as panelas cheias de arroz-agulhinha, feijão-jalo e salada de agrião com tomates verdes.  E uma velha lata de ervilhas cheia de minhocas novas para iscas. Ela, correndinho guardou os livros de Geografia e Historia, olhou-me com doce candura com seus olhos da cor do céu,  e antes de fazer de fazer o sortido me comentou toda romântica:

 

“É por isso que sou sua até morrer!”

 

-0-

 

Silas Correa Leite

E-mail: poesilas@terra.com.br

Site: www.portas-lapsos.zip.net

 



Escrito por Silas Corrêa Leite às 10:50
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Casamento

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes.
Eu não.
A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, de vez em quando os cotovelos se esbarram, ele fala coisas como "este foi difícil" "prateou no ar dando rabanadas" e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.


Adélia Prado


Escrito por Silas Corrêa Leite às 09:30
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NOSTALGIA


Amo
os
casais

Ombro
a
ombro

Pisando a mesma calçada

Amo os casais que
atravessam
ruas
estações

Seguram as
mãos
não
o tempo

Amo
os
casais

Que permanecem


EUNICE ARRUDA (poema publicado no site

 "escritoras suicidas" - convidadas - edição 36)



Escrito por Silas Corrêa Leite às 12:22
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Tanto ciúme

Fred Mandell, "Fenway". Bico-de-pena 27,9 x 38,1 cm, 2002.
.
.
Farta da rima pobre
dos cabelos descoloridos,
.
comprou
um bico-de-pena
.
e tingiu de nanquim
a VIDA.
.
.
Érica Antunes


Escrito por Silas Corrêa Leite às 11:00
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Escrito por Silas Corrêa Leite às 10:57
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Pequena Resenha Crítica:

 

O Horror dos Miseráveis no Romance “A Dualidade” de Arine de Mello Jr.

 

 

“Que não temas amar sabendo

Que embora a vida seja sombra e luz

Num palco de perplexidades

Aqui estarei para que venhas(...)

E se souberes querer que em mim

Tenhas pouso e pasto e sacrilégio”

 

Lia Luft

 

 

 

Lançado pela Editora Nelpa de São Paulo, o belo Romance “A Dualidade” do já consagrado escritor (poeta e ficcionista) de Ponta Porã-MS, Arine de Mello Jr, pelo próprio título da obra já se apresenta de alguma maneira: a luta do bem contra o mal nos seus mais plenos estágios, de espirituais a sobrenaturais, na cidade de Paraíso que, paradoxalmente ao que o próprio nome alude, é mais do que uma espécie assim de filial do inferno em tempos de dezelo público neoliberal, dívidas sociais impagas, injustiças criminosas e mesmo um quadro de abandono social histórico, numa usurpada geografia de contrastes sociais do norte do Brasil.

 

A “luta” brava não só e exatamente pelas causas sociais ou agro-rurais, na conturbada região de Altamira; portanto não entre classes dominantes e miseráveis como foco, ou mesmo sem terras contra latifundiários num tema político, mas a miséria mesma em todo o seu triste horror, evocando a mente não os miseráveis de Paris, mas os miseráveis expropriados dessa nossa afrobrasilis latrina sulamérica católica com suas aberrações de toda ordem (ou desordem) entre a hiléia verde e o homem explorador ainda satanizado. Pra começo de conversa, um amargurado homem urbano, de uma grande cidade - com suas estátuas, igrejas e cofres - perdido, infeliz, à procura de si mesmo; peregrino a buscar sinais e sentido para viver, e sobreviver de algum modo, que vaga até dar-se errante em plagas de cafundós pra lá de onde o Judas perdeu o tênis all-star, um lugar perdido no mapa, mas em que há atribulações de seres como reses tangidos com medo para o redil dos submissos, lugar que terrivelmente tem a sua historicidade degradante toda própria, onde exploradores do povo estão impunes, onde as forças do mal convergem para uma hecatombe, onde não se sabe quem é bandido e quem é autoridade constituída, e onde, ainda por cima de tudo, como pano de fundo por assim dizer, descontroladas forças sobrenaturais se juntam para criar uma espécie de apocalipse moreno-tropical como sinal de começo do fim do mundo. O autor vai longe, tem imaginação, carrega nas tintas, pintando o pré-caos.  

 

Numa impressionante narrativa realista, onde o personagem principal como que, se atendesse a um chamado espiritual de um tempo que já se perdeu nas dobras dimensionais do espaço, fugindo de si mesmo e querendo purgações de alguma maneira, como por uma estranha coincidência (muito além das fronteiras da alma); como uma profecia bíblica cai no olho do furacão de um local abandonado por Deus, e como numa batalha de miseráveis, em união pra lá de ecumênica junta-se a um pastor, um espírita, um católico, tudo isso entre matadores de aluguel impunes, jagunços, pervertidos, grileiros, ateus, loucos, garimpeiros, cegos, velhacos, ossadas e cadáveres, tentando enfrentar o que não sabe exatamente o que é e quem é, mas um verdadeiro legado do demo em vidas passadas e com cobranças num devir próximo, em terra de muito ouro e pouco pão, do nosso estilo mestiço-afrobrasilis de tantos renegados entregues à própria sorte, numa área perigosa de garimpo, local sem alma e sem lei, onde reina a arma branca ou uma valentia sobrevivencial, tudo figurado pela dona Morte. Vai por aí o belo romance.

 

Arine de Mello Jr, já elogiado por um dos melhores poetas brasileiros de então, Ascendino Leite, que dele diz “(...)Autor que honra e enriquece nossa linguagem lírica de modo irresistível e une com a vida nossa à do nosso país e da nossa comunidade comprometida com os valores de uma expressão poética(...)”. Ou ainda elogiado pelo maior proseador brasileiro, Moacyr Scliar, que comenta dele: “O autor tem um excelente domínio da forma poética, muita sensibilidade, muita imaginação(...)”.

 

Falando sério, com um handicap destes, o autor só poderia estrear muito bem como romancista numa ficção limpa, fluente. Logo de cara o romance “A Dualidade” se nos apresenta um prefácio edificante de Caio Porfirio Carneiro que apresenta o autor do livro: “O autor desce fundo no passado de Paraíso e descobre surpresas espantosas e espetaculares(...). Com uma disposição e sede de justiça, o personagem narrador enfrenta todas as tempestades e borrascas demoníacas(...). Paraíso é um sarcófago, um símbolo regional de alcance universal, entre o Bem e o Mal, entre Deus e o demônio em atmosfera lúdica(...). A busca da justiça social aos deserdados contra o poder dos que, lá em cima, acomodam-se com os cordéis do comando”.

 

É isso. Com os cordéis da contação sob domínio, o autor delineia um teatro ora de absurdos, ora de incompletudes, ora de um adubo humano entre carcaças e sofridas acontecências ribeirinhas que o personagem narrador, como um herói de ocasião, veio cobrar, justiçar. Será o impossível? Arine de Mello Jr, Advogado, com passagem pela Administração Pública em sua aldeia natal, Ponta-Porã, MS, é já autor de 3 livros de poemas: Estes Momentos (2004), Outros Momentos (2005) e Reflexões dos Momentos (200&), todos lançados pela Scortecci Editora de São Paulo. Vargas Llosa dizia: Escrever é uma obrigação para nos dar uma apaziguação existencial”. A busca do personagem principal é a busca também do autor como testemunho de um tempo, seu tempo, nosso tenebroso tempo?

 

O autor trabalha a tez chã de uma área em conflitos, narra os desacertos dos miseráveis que bem retrata em preto e pranto, o horror da própria miserabilidade social, rituais demoníacos, seres doentes, mistérios, erranças, encarnações datadas, e ainda, aqui e ali, poético e um filosófico prisma:  “Onde está a inteligência humana?(...). Onde está o lado bom da vida que é o amor? Na globalização dos mercados? Nos preços dos remédios? Nas sementes modificadas dos alimentos?(...) Nas guerras, nas armas sofisticadas?(...) A compaixão de Deus está nesse inferno que ele criou para separar o o joio do trigo(...) Li nomes naqueles corações de vidro(...)”

 

É isso, Arine de Mello Jr conta do joio e do trigo, quando não estão os dois num só – ah a espécie humana tão desumana - uma espécie assim de “troios” humanos, pseudo-humanos. O horror da miserabilidade e desesperança.

 

Talentoso, no entanto, lidando com um tema arenoso, o autor não cai na falácia panfletária, mostra todo seu caldo cultural, sua inteligência criativa, narra na primeira pessoa a vivificação letral dos fatos. O livro de cara custa a engrenar, fica algo suburbano, de uma altura pra frente, situado o conflito emergente, corre a corrente narrativa com garbo, é difícil de largar até chegar aos mistérios, contudências e final; você quer saber, quer continuar, tal a historiação entrando literalmente nas entranhas das almas sucumbidas pelo caos, pela maldade humana, pelos  podres poderes de áreas periféricas desse Brazyl S/A; o espectro horrendo do devir que se afigura trágico, as injustiças sociais e o risco de uma desgraça mundial a partir daquele lugar perdido no tempo e no espaço, como se um filme se passando na sua cabeça de leitor cativado ao ler e “ver” as cores das imagens correndo. “A Dualidade” é com todas as letras, o próprio eixo do romance, o leitmotiv; o núcleo em toda a construção literária de fio a pavio. Ganha quem gosta de leitura de qualidade onde o mal e o bem se confrontam e, bem ou mal, todos saem perdendo, porque o custo vem da derrama de lágrimas e sangue. Mas, afinal, é Deus ou o diabo que mora nos desfechos?. Leia o livro. Você vai adorar. Faz valer a pena conhecer um escritor de gabarito.

-0-

Silas Correa Leite 

E-mail: poesilas@terra.com.br

Site: www.campodetrigocomcorvos.zip.net

Autor de O HOMEM QUE VIROU CERVEJA, Crônicas Hilárias de um Poeta Boêmio, Giz Editorial, SP



Escrito por Silas Corrêa Leite às 09:36
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Ao Poeta,

Silas Correa Leite:

 

 

 

Poema do Poeta 

 

 

vida e morte,

um homem na rua.

sonho e realidade,

um homem no céu.

céu e morte,

inferno de um homem.

um poeta, a obscuridade,

além disso,

simbiose do meio,

meio alma, ouro,

meio ouro, nisso.

literomaníaco,

sem dilema, esforço,

formalidade ou gênero,

poeta primeiro...

alem disso,

nada, palavra sem veio.

poeta que é poeta,

vive, a serviço...

 

 

Arine de Mello Jr.   13/11/09



Escrito por Silas Corrêa Leite às 09:16
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Escrito por Silas Corrêa Leite às 12:48
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